Escolas não devem usar a
pré-escola para antecipar a primeira série
Ensino fundamental de nove anos será obrigatório. Pais
não devem ter pressa para alfabetizar filhos pequenos.
Através do brincar, a criança tem a
possibilidade de aprender muitas coisas. Explora o mundo e navega por seus
cantos desconhecidos sem correr grandes riscos.
Incorpora diferentes papéis, enfrenta os mais terríveis vilões e sai ilesa de
qualquer batalha. Experimenta, cria e recria. E tudo pode. Mas é só
brincadeirinha. Faz parte do faz de conta.
O brincar é fundamental para o
desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança. Tanto é assim que,
aos poucos, a escola foi se ampliando, aproveitou a fase anterior ao ensino
formal e criou a pré-escola -época em que aprender e
brincar se confundem.
Com isso, passou a ter uma diferença
das crianças que a frequentavam das que iniciaram sua
escolarização na primeira série do ensino fundamental. Geralmente, aquelas com
uma experiência escolar prévia tinham um desempenho na sua aprendizagem formal
num nível mais elevado.
As pré-escolas vão além de serem um lugar para as mães deixarem seus filhos quando saem
para trabalhar. Para isso, existem as creches. Elas são um lugar organizador do
brincar de modo a propiciar um aproveitamento desta atividade e, consequentemente, o desenvolvimento mais efetivo das
crianças. Elas, inclusive, podem ter um significado positivo no combate ao
fracasso escolar.
Sete
anos
Aqui no Brasil, no entanto, o ensino
era obrigatório a partir da primeira série do ensino fundamental, quando então
a criança encontrava-se com cerca de sete anos. A
pré-escola, portanto, era um privilégio daqueles que podiam pagar,
não sendo oferecido pelo estado. Assim, as crianças das classes menos
favorecidas não tinham as mesmas condições educacionais que as outras, entrando
mais tarde na escola e sem a escolarização prévia, bastante necessária para o
seu futuro acadêmico. Pouco democrático.
Pensando em aumentar o número de
crianças incluídas no sistema educacional, o MEC ampliou o ensino fundamental
de oito para nove anos. Para tanto, as crianças entrarão na escola
obrigatoriamente com seis anos no que se passará a chamar primeiro ano do
ensino fundamental. A antecipação de sete para seis anos visa, segundo as
orientações do ministério, propiciar uma escolarização mais construtiva, não se
tratando de antecipar para o primeiro ano as atividades da primeira série.
No entanto, mesmo sem essa mudança, já
se observava que muitas escolas usavam o último ano do período pré-escolar para
antecipar a primeira série. Não há a mínima necessidade disso. Não é o momento
de a criança levar de maneira tão regrada e séria a alfabetização e a
matemática.
As escolas parecem querer mostrar competência alfabetizando seus alunos cada
vez mais cedo. E os pais, com medo que seus filhos fiquem para trás, também
estão exigindo isso das instituições. Porém, o preço é alto para as crianças,
que estão tendo que dar algo que ainda não está de acordo com seu
desenvolvimento e amadurecimento. Estão tendo que amadurecer na marra.
Hoje em dia, crianças bem pequenas, de
cinco ou seis anos, parecem pequenos adultos. Falam e se comportam como tal.
Recebem críticas por isso, quando, é claro, esses comportamentos não
interessam. Sem dizer que, logo no início da escolarização formal, já estão
cansados dos compromissos acadêmicos.
Ora, vamos deixar as crianças
crescerem e se desenvolverem de acordo com suas possibilidades. E isso quer
dizer que muito do que aprendem, inclusive a
alfabetização e a matemática, pode e deve ser por meio do brincar.
Não vamos apressá-las. Elas terão a
vida toda para serem adultas e pouquíssimo tempo para
a infância.
Ana Cássia Maturano é
psicóloga e psicopedagoga
Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL1382803-5604,00-OPINIAO+ESCOLAS+NAO+DEVEM+USAR+A+PREESCOLA+PARA+ANTECIPAR+A+PRIMEIRA+SERIE.html